A Clínica lacaiana de nosso tempo e suas erudições.
O conceito de transferência foi introduzido por Freud em 1905 logo nos primórdios da psicanálise onde, junto de Breuer, iniciou os tratamentos e pesquisas com as pacientes chamadas histéricas. Em pouco tempo, Freud notou a importância do vínculo analista-paciente se estabelecer e ganhar musculatura. A partir daí, a repetição dos afetos destinados do paciente para seus cuidadores e relações primárias (especialmente os pais), iam se direcionando ao analista, possibilitando então a iniciação de uma análise baseada nesta transferência, na qual o sujeito reproduz uma gama de afetos relacionados ao amor, desejo e vínculo, denotando toda sua singularidade:
A noção do pai (...) dá a Freud o elemento mais sensível na experiência que chamei o ponto de basta entre significante e significado. (...) Não é impossível que se chegue a determinar o número mínimo de pontos de ligação fundamentais entre o significante e o significado necessário para que um ser humano seja dito normal, e que, quando eles não estão estabelecidos ou afrouxam, produzem o psicótico
Enquanto na psicanálise escutamos o sujeito do inconsciente, no jurídico a perspectiva é de um sujeito de direito, aquele de deveres e concessões assegurados pela lei. Tais práticas conservam linguagens e propostas distintas: em um crime, o Direito utiliza-se da ciência criminológica em busca da verdade, já na psicanálise não há uma verdade absoluta.
A psicanálise é aquela que pensa no ato simbólico, localizando a representação de um desejo social e denunciando como os grupos excluem para se afirmar, tornando monstro o outro. Neste cenário ocidental onde estabelecemos tal modelo social, é também inevitável perceber como ao passo que o conjunto de normas, feito teoricamente para todos e de maneira igualitária entre direitos e deveres, empuxa em sua dinâmica alguns para o crime, tornando-os bode expiatório, como também mantém outros em um sistema de privilégios: “a intolerância dos grupos é quase sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente contra pequenas diferenças do que contra diferenças fundamentais” (Freud, 1939, p.70).
A ação de um crime, pensando no Direito, acarretaria teoricamente na aplicação de uma sentença penal para tal feito, enquanto para a psicanálise não seria possível sequer determinar uma estrutura psíquica neste episódio. Um delito pode ocorrer onde o recalque ou a sublimação não operaram em determinado momento, ou porque, não há tais recursos disponíveis ao sujeito em casos de denegação ou foraclusão, a qual falaremos adiante.
Lacan, em continuidade ao desenvolvimento da teoria psicanalítica, provou-se também um tanto irreverente na construção de suas ideias, utilizando-se de outras escolas e ciências, como a filosofia, a matemática, a linguística e a antropologia, para sistematizar seu ensino. A partir disso, apropriou-se da aplicação topológica, a seu próprio estilo, trazendo para a psicanálise a Banda de Moebius e a Garrafa de Klein (1964-66), formalizando os processos psíquicos do sujeito e seu inconsciente.
A chamada “heresia lacaniana” foi assim denominada pela criação de Lacan (1971) do dispositivo Nó Borromeano RSI (Real, Simbólico e Imaginário), apresentando três campos de registro que se entrelaçam para marcar a experiência humana de sentido das coisas, onde o real diz daquilo que é inominável; o simbólico abrangendo toda vivência da linguagem; e o imaginário com o domínio das imagens e identificações. A heresia lacaniana consistiria, portanto, em ultrapassar os ensinamentos de Freud a respeito da lei, afirmando que: um pai único não funciona e, nunca houve um pai que desse conta de toda organização social:
Voltamos à Heresia, portanto, não mais apenas pela via da etimologia, mas pela via da homofonia, mais coerente com a predominância da função poética da linguagem enquanto matéria prima com a qual o psicanalista opera sob transferência. A Heresia lacaniana retoma, portanto, a trindade, mas não mais para, a partir de três, fazer Um como faz a verdadeira religião; antes, para apontar a impossibilidade de o Um alcançar o Dois da relação, produzindo o Três borromeano
Através dos grafos e matemas, Lacan nos deixou um aparato riquíssimo e atual para pensar nos casos clínicos considerando corpo, psiquismo, linguagem e inconsciente nas direções de tratamento. O grafo da linguagem (1956) marca a saída da criança mítica para a entrada na linguagem; o esquema L (1954) configura o papel da fala em construção com o discurso do Outro (aquele representante da ordem) já diferenciando simbólico e imaginário, e mais posteriormente sendo aperfeiçoado no esquema R (1957), que passa a considerar também a realidade como um campo importante da nossa formação.
O complexo e abrangente grafo do desejo (Lacan, 1956) dá contornos as estruturas psíquicas pensadas através da relação de cada sujeito com o desejo, mas não só em sua formação primária: o grafo nos convida a escutar o que se apresenta hoje, dentro da transferência e do setting analítico, como possibilidade de palco para novas elaborações e invenções, diferentes daquelas saídas já conhecidas, repetidas e sintomatizadas. O grafo desenha os caminhos do desejo, da castração, dos significantes e do gozo, destacando (como em outras formalizações lacanianas), a importância do objeto a, representante do que resta na operação simbólica da separação (pós alienação): algo sempre buscado e jamais plenamente localizado, sendo o inominável motivo do que nos move, “o objeto a é o que resta de inassimilável no campo do Outro, o que escapa à simbolização e ao saber” (Lacan, 1964, p. 179).
Para Lacan, as estruturas esquematizadas no grafo do desejo não são dadas numa saída biológica e sim construídas através de uma combinação, que parte de elementos ambientais somados à recursos utilizados pelos cuidadores para entrada do infans na linguagem e na cultura, onde, se não há inscrição do nome do pai, não há amarras que sustentem a edificação de uma subjetividade consistente na criança. Lacan chama de “sujeitos inconstituídos” aqueles que engendram um constructo psíquico não consolidado, que se dá especialmente onde questões como o endereçamento da fala do infans para os cuidadores não ocorre.
A psicose clássica acontece quando a lei do pai não se apresentou, impossibilitando assim a instauração de um campo simbólico suficiente. O desembocar de uma psicose pode, por vezes, evidenciar quando não há função paterna erigida na mãe ou em quem se dedicou à tal prática, sendo a instauração da lei paterna imprescindível para que o maternar, em caráter de função, possa ocorrer: se o Outro não é barrado, o infans portanto também não será. Se não há barra, não há falta que possibilite instauração do desejo e os circuitos benéficos que ele suscita em nossa existência, trazendo então o delírio como tentativa de assistência:
Na estrutura da neurose o sujeito submete-se a duras penas à linguagem que possibilita novos arranjos, mas nunca abrangendo a pulsão por completo, de maneira que nos enriquece grandiosamente e nos faz padecer na mesma medida. Utiliza-se da fala para fazer laço, ao passo que consente-se inconscientemente a castração, possibilitando assim, entre um significante e outro, o nascimento de um sujeito, revelando que o equipo genético por si só não nos torna humanos.
A afetação e investimento no infans é imprescindível, sendo pungentemente danosa, a relação indiferente dos cuidadores. Faz-se necessária a aposta de que ali há um humano, junto da oferta de contingência, com interesse e antecipação às demandas criadas pelo bebê, onde, a ausência de um alicerce para produção do repertório simbólico pode ocasionar a inexistência de um “basta!” que organize o psiquismo. Se o nome do pai é a significação fálica que assujeita o neurótico e o marca, a psicose diz de um real que brota sem borda, na pura pulsão de morte, sem domínio ou arranjo favorável à vida.
O sujeito inconstituído não teve uma falta com bordas ou nomeação que amarrasse o imaginário. A falta de boas demarcações no processo de alienação e separação gera imensa confusão na criança, de forma que o sujeito não elabora condições de fazer algo com o que é dito dele. Assim não há ligação de apoio na cadeia significante, só continuidade, apontando como a ausência de simbolização provoca uma evitação do outro, naquele sujeito que mostra-se invadido a qualquer tentativa de contato. A isto, Lacan (1955) chama de mecanismo de foraclusão, utilizando-se do saber jurídico (citado anteriormente), para dizer de uma lei que deveria operar, mas a qual não se atua, por decurso de prazo.
A paranoia, a melancolia e a esquizofrenia, são constructos psíquicos que se apresentam dentro da estrutura psicótica, assim como o borderline, não sendo este um diagnóstico unânime na psicanálise lacaniana. Há também as ditas psicoses não desencadeadas ou ordinárias, citadas por Lacan e continuadas por Jacque Allan Miller, que diz dos casos em que não se percebe sintomas psicóticos clássicos, sendo consideradas mais discretas e sem delírios explícitos. Nestes casos, não raramente, observa-se algo que promove certa sustentação ao sujeito que o estabiliza barrando um rompimento brusco com a realidade, através de um 4° elo ou sinthoma, que ampara o nó borromeano:
Há também literatura lacaniana (1970) que conta da chamada psicose generalizada, com declínio do nome do pai num momento em que nota-se na civilização, um estado de foraclusão coletiva como reflexo da cultura contemporânea, e não necessariamente como uma psicose estrutural. Tínhamos até pouco tempo, uma lei paterna como um referencial mais conciso e que, apesar de ainda vigorar, parece demonstrar uma intensidade mais dispersa, afrouxada. Cada família tem seus contornos e cada vez mais é observável os inúmeros nomes do pai possíveis aos sujeitos da atualidade. Tenta-se outras invenções para o pacto civilizatório diante da perda de um pai contingente, possibilitando tentativas não tão verticalizadas que inauguram novas realidades, à exemplo, a notável ascensão do feminino nos últimos anos: “Não estamos entre os que se afligem com um pretenso afrouxamento dos laços de família de bem” (Lacan, 1970, p. 66).
Lacan nos presenteou com técnicas e ferramentas para pensar e construir direções diante dos desafios clínicos que acompanham o nosso tempo, seus efeitos e sintomas. Entendemos a exemplo os recursos sociais criados para lidar com nossas pulsões, como o Direito, pela ótica da psicanálise: o crime é uma experiência humana com o Real e cria-se sobre ele uma ficção em caráter de encenação, onde o trunfo de um julgamento jurídico será de quem melhor encenar. As prisões, notadamente, não foram feitas para ressocialização, e sim para punição e restrição de liberdade, observadas na ausência de investimentos no sujeito para a possibilidade de curar- se através da autorresponsabilização, diferente do que se espera de um processo analítico.
Com a ousada e bem-sucedida topologia lacaniana, sendo ainda muito mais vasta e abrangente que os conceitos aqui citados, Lacan demonstra valor e assertividade, efetivando a psicanálise por métodos didáticos e aumentando a aderência de sua transmissão, somando pragmatismo, inovação e cientificidade ao trabalho analítico, que assim chega mais longe, acessando outros campos e racionalidades. Um convite a pensar o sujeito de um modo complexo e profundo, abandonando visões mais deterministas.
Sobre as psicoses, Lacan nos aponta a possibilidade de práticas bem embasadas (onde Freud pouco se arriscou) pluralizando o que seria um nome do pai e convidando o analista a entrar quando necessário como partícipe na construção do sujeito, usando o desejo a favor do processo e construindo uma nova simbolização da ausência-presença que gere consistência e segurança: o manejo na psicose é o secretariado que também passa pelo acolhimento de demandas. É preciso deixar o psicótico falar, não se pode empurrar sentidos numa análise, especialmente numa psicose. Importa pensar o sujeito psicótico na polis, no laço social, que por vezes promove exclusão. Ele nos ensina: a pulsão de vida só é possível de ser aprendida através do amor.
Em casos de neurose, onde a tela da fantasia cai como um banho de letras, pode- se também utilizar de inventividade, ao contrário das saídas freudianas clássicas que propunham parar no rochedo: não é só saber-fazer com o sintoma, mas também criar vias para desidentificações rígidas e adoecedoras, sem esquecer que estruturas dizem também de maneiras da entrada e vivência na linguagem, característica tão definidora da experiência humana.
A continuidade das pesquisas lacanianas aponta também formas elaborativas para sustentar tratamentos respeitando a variedade de estilos, como a clínica com destaque no real (borromeana), dizendo como cada estrutura responde a sua origem falha, a castração e buscando o que faz suplência; ou a clínica do simbólico, manejando como cada estrutura responde à inscrição na linguagem, na busca pelo capitonê ou por um ponto de significação.
REFERÊNCIAS:
FREUD, S. Obras completas, vol.19: Moisés e o monoteísmo, compêndio de psicanálise e outros textos. 11ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
LACAN, J. Escritos. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. LACAN, J. Outros escritos. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, J. Seminário, livro 2: o eu na teoria de freud e na técnica da psicanálise. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, J. Seminário, livro 3: as psicoses. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LACAN, J. Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
LACAN, J. Seminário, livro 10: a angústia. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, J. O seminário livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2ª edição. Rio de janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, J. Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LACAN, J. Seminário, livro 23: o sinthoma. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
QUINET, A. A descobertadesccoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
SITE:
PRATES, A. L. ENCONTRO INTERNACIONAL DA ESCOLA DE PSICANÁLISE DO CAMPO LACANIANO. A heresia lacaniana. Disponível em: rdv2020-ec-prelude1.pdf. Acesso em: 10 de outubro de 2025.
