AS ADOLESCÊNCIAS E A CLÍNICA CONTEMPORÂNEA
O conceito de transferência foi introduzido por Freud em 1905 logo nos primórdios da psicanálise onde, junto de Breuer, iniciou os tratamentos e pesquisas com as pacientes chamadas histéricas. Em pouco tempo, Freud notou a importância do vínculo analista-paciente se estabelecer e ganhar musculatura. A partir daí, a repetição dos afetos destinados do paciente para seus cuidadores e relações primárias (especialmente os pais), iam se direcionando ao analista, possibilitando então a iniciação de uma análise baseada nesta transferência, na qual o sujeito reproduz uma gama de afetos relacionados ao amor, desejo e vínculo, denotando toda sua singularidade:
(...) todas as pessoas adquiriram uma determinada idiossincrasia ao conduzirem sua vida amorosa, ou seja, daí vem as condições que a pessoa estipula para o amor, as pulsões a satisfazer e as metas almejadas. Isso resulta, digamos, em um clichê (ou em vários deles), que ao longo da vida é repetido regularmente, é reeditado, na medida em que as condições externas e a natureza dos objetos amorosos acessíveis o permitirem, o que certamente não é de todo imutável, mesmo diante de impressões recentes
Os casos clínicos freudianos nos deixam inúmeros ensinamentos sobre a condução da transferência, de maneira a utilizar tal força motriz a favor das elaborações psíquicas, sendo esta a principal ferramenta de análise. O analista deve ser cuidadoso, oferecendo suporte para que o amor/ódio trabalhe a favor de uma cura. Freud, sempre honesto em seus relatos, cometeu também inúmeros erros na condução de seu clinicar neste fazer. Mais tarde, ainda utilizando-se do conceito da transferência, Lacan nos deixa preceitos para o manuseio das ligações transferenciais, dando ênfase à importância da criatividade na particularidade de cada caso, propiciando um espaço seguro, mas especialmente autêntico:
A competência inventiva por parte do analista parece não ser só uma questão de estilo, mas um saber imprescindível àqueles que se dispõem a escuta clínica. O convite feito por Lacan (1953-54) a que o analista esteja atento à subjetividade de seu tempo, mostra uma orientação precisa diante dos casos clínicos atuais. Nota-se no setting analítico uma mudança mais recente sobre a capacidade dos sujeitos em fantasiar: tal faculdade tem se mostrado empobrecida. Uma baixa habilidade em articular a fala, simbolizar sua subjetividade, fazer associações e até mesmo formular uma queixa que propicie o início de uma análise, tem levado muitos ao adoecimento.
Tal condição convoca o analista a um olhar mais atento e inovador que permita constatar e operar na maneira com que cada sujeito se enlaça no coletivo, quais angústias não ditas se concretizam no corpo e como diagnósticos da moda têm sido cristalizados ao invés de utilizados como ponto de partida para maiores investigações. Os conflitos psíquicos relacionados à identidade e sexualidade se fazem recorrentes diante da fragilidade no laço social onde se vive o isolamento ou a superexposição, a impulsividade ou imensa inibição. Toxicomania, uso compulsivo de telas e jogos, sintomas precipitadamente taxados de TDAH, são frequentes no setting e parecem denunciar a potência pulsional escapando sem direção e, impossibilitando a exemplo, a concentração em algo específico onde tudo rouba muito facilmente a atenção.
Não raramente essas manifestações têm surgido em adolescentes que, nesse período de transitoriedade entre ser objeto e tornar-se sujeito, lidam de forma precária com as mudanças no corpo, a quedas dos ideais e os modos possíveis de separação do Outro. Como consequência os números revelam: a depressão tem sido uma das causas principais de adoecimento em adolescentes, com suicídio assumindo o 3o lugar dentre causas de morte na juventude (OMS, 2025).
Tanto para Freud (1905) quanto para Lacan (1957-58), a puberdade é tida como uma fase de escansão da sexualidade, que pode gerar um embaralhamento das posições sexuais onde mais comumente, caminha-se com uma delas sendo suprimida e outra assumida como parte da identidade. Esse encontro com o sexual pode ser traumático e por vezes associado a violência se não bem cuidado.
Sendo lugar de passagem, a adolescência demanda questionamento, rupturas e novas invenções, necessitando de um ambiente que sustente direções para que o narcisismo secundário (Freud, 1914) possa agir na formação de laço, com o processo de retirada da libido dos objetos e redirecionada ao eu. Pede-se observar nesses sujeitos, como aparecem os ideais e suas transmissões do desejo do Outro ou mesmo se a ausência deles; como se separam e se vinculam, com a ressalva de que muitas das construções feitas ali serão levadas para a vida adulta, revelando o lugar da pulsão erótica e seus arranjos.
Esse florescer do corpo pode se apresentar com prazer ou desprazer, ao passo que parte importante do repertório social está em construção e o sujeito já não mais infante, tem de lidar com as consequências de seus atos. A descoberta do furo em si e no Outro pode ser assustadora, o que demanda adultos que se portem como tal, para um processo de separação menos traumático diante da pressão em sustentar as fantasias parentais quando, sintomas por vezes, denunciam o adolescente como objeto para a família:
Tal esfera clínica contemporânea apesar de complexa, não é sem saída. Lacan, especialmente em seus últimos ensinos, construiu hipóteses diagnósticas e aparatos para que o analista pudesse lidar com casos semelhantes em seu fazer. A função paterna apresentada por ele como um organizador do simbólico (Lacan, 1957-58) e que aparenta estar em queda no psiquismo de nossa época, funciona como um balizador que noticia de que forma a pulsão se mostra em cada sujeito: quem exerce a função paterna ou se o lugar está vazio; se há uma compulsão ou se a pulsão se apresenta enrijecida; como se reage à castração; se há uma introdução da lei e alguma fantasia instaurada, seja consolidada ou precária; se se constata uma melhor elaboração dos afetos ou se um curto-circuito patológico:
Toda essa conjuntura possibilita ao analista fazer suas apostas nas possíveis direções do tratamento. Um modo muito eficaz de formalização clínica apresentado por Lacan em 1974, é o nó borromeano, representado pela sigla RSI que designa Real, Simbólico e Imaginário como os três campos da experiência humana onde, o Real nos conta do inominável e impossível de simbolizar; o Simbólico como toda esfera da linguagem e, portanto, do inconsciente; e o Imaginário para elucidar o aspecto das imagens e identificações. Este dispositivo funciona como uma metáfora topológica que sistematiza a estrutura do ser falante nesta perspectiva: “O Real é o que não cessa de não se escrever. O Simbólico estrutura a realidade humana. O Imaginário é o que nos faz crer na realidade do eu ” (LACAN, 1972, p. 131). Assim, o analista, a exemplo, pode se indagar partindo de sua escuta, como anda a amarração do RSI no sujeito que ali se encontra.
Os conceitos de acting out e passagem ao ato (Lacan, 1962-1963), vem para viabilizar as interpretações possíveis diante de cada sofrimento. O primeiro se referencia a uma dinâmica onde o sujeito não dispõe de elaboração mais profunda e sua dor aparece no corpo, em suas ações impulsivas que soam como um pedido de ajuda: brigas, automutilações, condutas de risco e lesões provocadas, são direcionadas a um Outro. Já o segundo, se articula no feito e de forma mais radical, não há um pedido, mas sim uma ruptura advinda da angústia insuportável, um ato limite: fugas radicais, tentativas de suicídio e práticas de extrema violência, consigo e/ou com o outro.
Já o campo dos discursos, apresentado por Lacan no seminário 17 (1969-70) , vem como proposta para pensar e arquitetar as maneiras de laços no social que ilustram o gozo, a linguagem, o saber e o poder. Tais laços revelam muito mais que a comunicação, mas a natureza e composição de uma subjetividade e suas formas em se conectar.
Os discursos são compostos por quatro elementos (o mestre, o saber, o sujeito barrado e o objeto pequeno a), que giram entre quatro posições fixas (o agente, o outro, a produção e a verdade). Assim pode-se ler em cada um deles o mal-estar que nos ronda e seu impossível, tanto quanto, se bem aproveitado, oferece ao analista a condição de provocar o desejo do analisante além de evidenciar como toda comunicação e estrutura social possui uma verdade (ainda que oculta) e uma produção. Os discursos não são necessariamente fixos em cada sujeito, mas circulam a depender do cenário.
Antônio Quinet (2011) explica que o discurso do Mestre é da ordem da lei, aquele que estabelece a hierarquia; o discurso da Histeria é o que busca o saber e a satisfação no Outro; o discurso da universidade como aquele que busca a verdade e a explicação através da ciência; e por fim o discurso do Analista, que busca a verdade do sujeito pela via da escuta e da interpretação: “os discursos servem para situar o sujeito (…) permitindo assim uma análise mais precisa da estrutura psíquica é da posição do sujeito no mundo” (QUINET, 2011, p. 20).
Assim, é possível concluir que orientações nos tratamentos de adolescentes possuem especificidades, mas também apontam para aquilo que se busca propiciar a sujeitos em fases variadas (sabendo que a realidade psíquica, no fazer clínico, é soberana a idade cronológica): construção de um nome do pai e novos representantes para lidar com a pulsão, adquirindo repertório que a retire de um curto-circuito mortífero. Criar vínculos, manejos inventivos, auxílio na elaboração de discursos mais autênticos para sustentação de uma alteridade no laço social e no firmamento de um lugar sexuado. Não se modifica a estrutura psíquica, mas a adolescência se mostra como uma brecha, um túnel, passível de novas apostas.
Toda aparelhagem clínica disponível na literatura psicanalítica, demonstra que a práxis da análise pode ser vasta e muito bem embasada a aquele que se propõe a escuta das singularidades e prioriza o sujeito em detrimento de ideais, sustentando sim o suposto saber (Lacan,1964) mas, sempre o devolvendo ao saber do analisando.
Deste modo, o suporte de demandas deve encontrar meios para que o desejo possa advir, através de uma transferência única, criativa e bem estabelecida, cabendo ao analista a oferta de alicerce para um firmamento no coletivo de um modo individual, e de forma tática, se necessário, ser um mandatário da função paterna, onde possa brotar movimentos desejáveis e condescendentes ao inevitáve
REFERÊNCIAS:
FREUD, S. Obras Completas, vol. 6: Tres ensaios sobre a teoria da sexualidade, Análise fragmentária de uma histeria (O caso Dora) e outros textos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, S. Obras incompletas, vol.6: Fundamentos da clínicacliníca psicanalítica. 11ª edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
FREUD, S. Obras incompletas, vol.12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. 11ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
GOMES, S. et al. Winnicott. Seminários mineiros: ambiente e holding. Rio de Janeiro, ING, 2023.
LACAN, J. Escritos. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, J. Seminário, livro 3: as psicoses. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LACAN, J. Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
LACAN, J. Seminário, livro 10: a angústia. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, J. O seminário livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2ª edição. Rio de janeiro: Zahar, 2008.
QUINET, A. 4+1: os quatro discursos de Lacan e o +1 da psicanálise. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
Site: WORLD HEALTH ORGANIZATION. Suicide prevention. OMS, 2025. Disponível em: Suicide. Acesso em: 06 de fevereiro de 2026.
