Sexualidade, subjetividade e sintoma – por Heloisa Freire

O ENLACE DA SEXUALIDADE NA SUBJETIVIDADE E AS NOVAS FORMAS DE SOFRIMENTO

Podemos entender como subjetividade a montagem interna de cada indivíduo, sua dinâmica de funcionamento com mundo externo e consigo.  A subjetividade nos conta de como lidamos com os estímulos recebidos ou provocados e os afetos que brotam daí; como respondemos, criamos e atuamos, sendo base para a formação do que popularmente é chamado personalidade e profundamente vinculada às nossas fantasias, contando de uma maneira única em existir.

Lemos em Bruce Fink (2018), como a fantasia é menos sobre algo existente previamente e mais uma construção no curso analítico, de forma que o sujeito engendra narrativas das suas escolhas e atos, ao passo que avança em sua análise e passa consequentemente a se responsabilizar por seu posicionamento diante do que lhe foi causado.

Para a psicanálise, não seria possível falar de subjetividade sem considerar a sexualidade, que aqui vai além do senso comum, tendo influência no que instiga ou adoece, onde se apresenta a repetição ou mesmo uma inibição.

Freud desde o início de suas pesquisas, identificava a sexualidade sem fixidez e presente nos indivíduos desde a infância, ainda que por muitos estudiosos do século XIX tenha se explorado uma ideia moral e por vezes criminosa do sexual. Através das configurações descritas nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” em 1905, (que narra dentre outras camadas o desenvolver psíquico atrelado às zonas erógenas do corpo) ele defende as múltiplas possibilidades de destino na identidade e escolha (inconscientes) de objeto sexual, e seu desembocar na vida adulta, dando dignidade às inúmeras formas de sexualidade, ainda que consideradas divergentes da convenção. Revela-se assim que para a pulsão não existe lei, a lei vem do encontro com a cultura.

Em sua obra, Lacan (1972) não deixa de lado o sexual nem o Complexo de Édipo freudiano, mas o ultrapassa abrindo cada etapa, as funções, os encontros e efeitos que brotam daí. Ele descreve como a sexualidade produz formas de gozo e investimento, fomentando caminho para as ditas estruturas clínicas e contando do posicionamento diante da castração e do desamparo. A subjetividade e consequentemente a sexualidade, são temas caros à psicanálise, sendo esta uma prática que não se guia pelo universal e sim por cada sujeito em sua singularidade.

Lacan nos conta, ainda em 1972, que no trabalho da sexuação há um esquema lógico dos posicionamentos subjetivos onde, o Édipo sai do centro e dá espaço ao Gozo: Há um 1º tempo em que a criança se depara com sua anatomia e a diferença em relação ao outro; depois há o encontro com a cultura onde aprende-se performances de gênero e em cada modelo o que é ou não permitido pelas normas sociais; posteriormente, num 3º tempo, é observável o que o sujeito fará disso que viu e viveu, o que se extrai do romance familiar e o que brota do desejo para assumir uma posição de gozo, nomeada “masculina” (todo fálico) ou “feminina” (não-todo fálico) , que não se determinará pela presença do pênis ou vagina, mas sim pela satisfação pulsional, sendo ambas posições ocupadas por homens e mulheres: 

Assim, Quinet indica que para entrar na sexualidade é imprescindível se separar (na psicose, à exemplo, não há separação). Dessa individuação tentamos resgatar algo supostamente vivido, uma completude alucinada e sentida como perdida. Na clínica lacaniana chamamos “objeto a”, isso que cai e passa-se a buscar ao longo da vida (LACAN, 1962). O “objeto a” inconscientemente designa, dentre outras coisas, os parceiros de cada escolha, que nunca ocuparão a mesma posição: se este é sujeito-todo, o outro obrigatoriamente será não- todo.

Na posição do gozo Outro (ou feminino/não-todo), é demonstrada uma rebeldia onde o significante fálico não o atinge de maneira determinante, nem sucumbe a ele. É um gozo ilimitado, que não encontra algo que possa contê-lo. Assim a mulher/homem que assume a posição feminina, constrói um amor tecido na fala, e de maneira a não formar conjunto. Já no gozo fálico (ou masculino/todo), o sujeito quer dar o falo que não tem, e isto se revela pela sua própria angústia de castração (LACAN, 1972). Assim vai se apropriando de substitutos, “se medindo, pesando, avaliando, comparando seus falos e competindo” (QUINET, 2012, pág. 62), consequentemente, formando conjunto. Sua erótica é do silêncio: se falar estraga.

Vemos então que o inconsciente é quem comanda a sexualidade e permite, portanto, que o sujeito possa transitar na tábua da sexuação. Dizemos assim que o percurso na sexualidade parte da anatomia, não se fica indiferente ao sexo biológico. Ter ou não ter pênis organiza a criança, mas não para por aí: genitalidade não define orientação/ identidade sexual. 

Cada sujeito no desenvolver de seu constructo psíquico, e, portanto, sexual, formará também de modo singular seus sintomas e sofrimentos, dando nuances a criação de sua fantasia. A psicopatologia é o campo de estudos dessas dores, suas manifestações e seu encontro com o social. A psicanálise junto da psicopatologia se propõe a não só nomear tais evidências, mas também entender as causas sem se direcionar por vias generalistas ou aderir a um rol de doenças, como nas medicinas que privilegiam os sintomas. A clínica psicanalítica recomenda a escuta dos sintomas, mas não faz seu diagnóstico por fenômenos.

Para Freud (1920), o sintoma é construído como uma satisfação substituta. Em seus casos clínicos é observável a exibição dos sintomas histéricos, obsessivos e fóbicos como uma metáfora direcionada ao outro, algo que se endereçava para que pudesse ser traduzido, fosse no corpo simbólico, nas ideias compulsivas ou na fixação em um objeto. A clínica freudiana foi marcada por ser a clínica do sentido: saber sobre o sintoma era suficiente, ou minimamente, demonstrava importantes avanços clínicos.

Hoje os sintomas não se apresentam apenas como os observados naquela época: o sujeito do século XXI não quer saber do desejo. O que se vê nos consultórios não mais se concentra em queixas que possam ser facilmente elaboradas, mas sintomas pouco simbólicos, empobrecidos, onde não se endereça nada a ninguém.

 Há uma dificuldade atual em fazer rede, transferência, ou mesmo uma queixa com questões a serem verbalizadas. Algo na contemporaneidade nos mostra um declínio na capacidade em fantasiar, um entrave no lidar, que leva à compulsão sem elaborações. Antes, o que se via no período freudiano, era não poder gozar. Na atualidade vemos um imperativo de gozo, o excesso sem falta.

Nota-se sintomas predominantes, como a inibição advinda de ideais muito grandes e uma busca que se dá por objetos que tampone a angústia, assim seu alívio vem frequentemente de maneira não simbólica, mas anestésica.

Muito disso parece se vincular com a queda na figura do pai (enquanto função), até então responsável por barrar o gozo (LACAN, 1955): a destituição da lei paterna trouxe consigo falta de referenciais, provocando na pulsão uma desorganização pela ausência de limites e como consequência, indivíduos cada vez mais infantilizados, culminando numa fragilidade para enfrentar a vida. Há uma crise do masculino, onde os homens encontram-se deslocados. O retorno do conservadorismo parece vir como tentativa em “salvar o pai”, num mundo que não se organiza mais em torno deste e cada um tem suas próprias identificações. Vemos interessantíssimas novas formas de família e de masculinidades, à exemplo, mas também muita inconsistência nos laços. Os excessos do gozo parecem explicitar e ao mesmo tempo esconder a falta, como na banda de Moebius (LACAN, 1962).

Há também incidências de novas posições na sexualidade/sexuação que se apresentam líquidas: transsexuais, assexuais, sexualidade fluida, o Queer e uma gama de variações. Em paralelo o capitalismo sendo o sistêmico econômico e social predominante, está sempre a oferecer (de maneira perversa) mais uma ilusão de completude, seja nos objetos consumidos, nas ofertas de soluções absolutas para o mal-estar, especialmente no corpo e as demandas por modificações, com cirurgias plásticas, procedimentos estéticos e promessas na transição de sexo, sem considerar as nuances simbólicas necessárias nessas apostas. Safatle diz que, “submeter-se a pretensa racionalidade das leis da economia exige uma despolitização radical da sociedade, uma recusa violenta de seus questionamentos (…)” (SAFATLE, 2021, p. 27). Se a mudança de sexo e outras alterações mostrarem-se decisões equivocadas, vende-se também a destransição ou desarmonização, sempre uma proposta de satisfação plena, a qual muitos não estranham nem interrogam:

Quando há sintomas epidêmicos e recorrentes, algo de nosso tempo está sendo contado na promoção de doenças, ainda que os mesmos sintomas não signifiquem uma mesma tratativa. Os tipos de sofrimento estão inevitavelmente associados a subjetividades que denunciam o panorama social. Assim os fenômenos corporais e psicossomáticos, a fibromialgia, compulsão alimentar ou sexual, as crises de pânico ou burnout, as formas de depressão e outros padecimentos coletivos, demonstram uma precariedade, um curto-circuito da angústia e descarga, que clamam por uma reinvenção do dispositivo clínico.  

Lacan (1975-76) faz as suas contribuições não descartando aquele saber freudiano, mas atribuindo uma abertura na interpretação do sintoma, o lendo também como um retorno do conteúdo recalcado, e especialmente um modo de gozo, uma forma de inscrição do significante, servindo como sustentação a vida, ao desamparo e verdade do sujeito. Ele nos contempla com ferramentas para o trabalho com a clínica contemporânea em toda sua obra, mas, mais notadamente em seu último ensino, somado a contribuições de psicanalistas pós lacanianos, que deram continuidade em suas pesquisas. O olhar singular para a psicopatologia escutada nos consultórios e considerando “a subjetividade de sua época” (LACAN, 1998, pág. 322), se faz imprescindível para colocar em prática tais recursos clínicos.     

Através de sua metapsicologia do RSI, há uma direção pensada para as estruturas clínicas através dos registros, sendo o Real aquilo que escapa à simbolização e nunca é totalmente elaborado; o Simbólico para pensar o que é atrelado a linguagem (significado e significante), as leis e a cultura; e o Imaginário, vinculado à identificação, as imagens e o aspecto narcísico do sujeito:

Seu importante acréscimo do conceito de “sinthoma” (LACAN, 1975-76), nos ensina sobre casos em que os fenômenos não são apenas expressões patológicas, mas uma suplência que faz amarração no RSI e assim, há uma produção de algo mais com tais manifestações ao invés da busca por eliminá-las, diz de um convite a inventividade. Antes, muito usado em cenários de psicose como maneira de substituir o nome-do-pai, hoje pode ser pensado além, diante da vastidão de arranjos subjetivos:

No Seminário X, “A angústia” (LACAN, 1962), somos apresentados à conceituação do “acting out”, como tentativa de elaboração direcionada ao Outro, onde não há nomeação, é uma mensagem encenada, através da ação, como um demonstrativo. Já na “passagem ao ato”, não se demanda nada. Não tem clamor nem pedido ao Outro, é uma saída da cadeia significante, uma separação radical, onde o sujeito fora de si é comandado pela pulsão. A orientação é também da ética do cuidado ao manusear tais sintomas, pois muitos fazem barreira suplantando uma passagem ao ato: “nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício” (LISPECTOR, 1947, s/ p.).

Com toda sua conceitualização, Lacan demonstra como o analista deve operar, não só auxiliando na simbolização, mas fazendo borda que barre o mais-de-gozar, na recuperação de uma posição desejante diante da falta e na invenção de outros tipos de laço com a vida. Os novos tempos nos apresentam a existência de subjetividades múltiplas, que, portanto, pedem múltiplas construções. Direções que apontem novos reguladores que propiciem sujeitos a restabelecerem alguma ordem organizadora.

Torna-se fundamental se haver com a castração com modos mais dignos de vida, abrindo palavra pelo desejo, para que a única dimensão possível do gozo não seja o excesso, suicídio, feminicídio e demais violências, consigo e com outro. Em certo contraponto aos primórdios da psicanálise, hoje pede-se menos descoberta e mais inventividade. O sujeito do inconsciente não é fantoche da cultura, assim o texto do analisando é que precisa submergir.

REFERÊNCIAS:

 FREUD, S. Obras incompletas, vol.6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria e outros textos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 

FREUD, S. Obras incompletas, vol.14: História de uma neurose infantil, Além do princípio do prazer e outros textos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 

FINK, B. Introdução clínica a psicanálise lacaniana. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. 

KEHL, M. R. O tempo e cão. 2ª edição. São Paulo: Boitempo, 2015. 

LACAN, J. Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. 

LACAN, J. Escritos. 1 ª  edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 

LACAN, J. Seminário, livro 3: as psicoses. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. 

LACAN, J. Seminário, livro 10: a angústia. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. 

LACAN, J. Seminário, livro 23: o sinthoma. 1 ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 

PORGE, E. Jacques Lacan um psicanalista: percurso de um ensino. Brasília: UnB, 2006. 

QUINET, A. Os outros em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 

SAFATLE, V. Neoliberalismo como gestão doso sofrimento psíquico. 1 ª edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. 

Site:

REVISTA PROSA, VERSO E ARTE. Uma bela e instigante carta de Clarice Lispector para sua irmã Tania Kaufmann. Disponível em: https://www.revistaprosaversoearte.com/uma-bela-e-instigante-carta-de-clarice-lispector-para-a-sua-irma-tania-kaufmann/ Acesso em: 18 de julho de 2025. 

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