A RELAÇÃO ENTRE CORPO E SUBJETIVIDADE NO QUE TANGE AO OFÍCIO
A psicanálise desde seus primórdios tem como orientação uma escuta que vai além do habitual oferecido nas clínicas médicas e hospitais onde, à propósito, se iniciou. Freud sendo naquela época um médico neurologista e, portanto, aplicando métodos mais mecanicistas, teve um giro importante de posição com o passar de suas experiências, muito marcado numa cena em que é interditado por uma das pacientes de Breuer (Anna O.), que apresentava sintomas físicos de inibição no corpo, sendo convocado por ela a escutar ao invés de hipnotizá-la para uma catarse ou suturar suas dores com artifícios orquestrados por mestres das ciências (FREUD, 1985). Algumas dessas práticas por vezes tornavam-se violentas e vinham sendo recorrentes no tratamento de diversas mulheres as quais se tem relatos. Freud inova, não só se dispondo à escuta sem moralizá-la, como passa a considerar a fala em associação livre um preceito fundamental.
Desta forma, a escuta do que diz o paciente, se colocando no centro de sua questão e não mais como um leigo absoluto de si, permitiu o desenvolvimento da práxis que hoje, já muito mais desenvolvida, continua sendo baseada no que chamamos “talking cure” ou cura pela fala (FREUD, 1985). A fala tornou-se o principal insumo de trabalho de um analista:
"Há muito desse simbolismo na vida, mas habitualmente não o percebemos. Quando me propus a tarefa de expor o que as pessoas escondem, não pela coação da hipnose, mas pelo que dizem e mostram, isso me pareceu mais difícil do que é na realidade. Quem tem olhos para ver e ouvidos para escutar, logo se convence de que os mortais não são capazes de esconder segredo algum. Quem silencia com os lábios, fala com a ponta dos dedos; delata-se por todos os poros. Por isso a tarefa de tornar consciente as coisas mais ocultas da psique é perfeitamente exequível."
Não por acaso, os olhos, ouvidos, lábios, dedos e poros são citados na fala freudiana, pois o corpo ali já era considerado delator das subjetividades, aquele que transporta mensagens a que puder escutar. “Ouvir, para Freud, tornou-se mais do que uma arte, tornou-se um método, uma via privilegiada para o conhecimento, à qual os pacientes lhe davam acesso” (GAY,1989)
Mais adiante e com outras ferramentas fomentadas por Freud, Lacan reformula a metapsicologia, agregando-lhe outros dispositivos e para além da fala, passa a dar primazia à linguagem, mais propriamente aos significantes: elementos não ocasionais, ditos, experienciados pelo sujeito e muito carregados de afetos e ligações em cadeia, que terminam por revelar parte do constructo psíquico de quem ali se encontra e consequentemente de sua corporeidade. Assim anuncia-se um corpo afetado, que através da escuta, torna-se um corpo falante, sendo suporte de dizeres representativos:
Que especificam as sílabas, os empregos das palavras, as locuções nas quais elas se agrupam, e isso condiciona, até na sua trama mais original, o que se passa no inconsciente. Se o inconsciente é tal como Freud nos descreveu, um trocadilho pode ser em si mesmo a cavilha que sustenta um sintoma, trocadilho que não existe numa língua vizinha. Isso não quer dizer que o sintoma está sempre fundado em um trocadilho, mas ele está sempre fundado na existência do significante como tal, numa relação complexa de totalidade a totalidade, ou mais exatamente de sistema inteiro a sistema inteiro, de universo do significante a universo do significante.
É possível então constatar que a perspectiva que conecta corpo e subjetividade – através da fala – não é novidade no saber psicanalítico, ainda que muitos possam não lhe dar o devido lugar de particularidade ou, como disse Lacan em 1985, o corpo deveria surpreender-nos mais. Portanto podemos pensar num corpo pulsional, marcado por significantes e ocupado pela libido: uma plataforma singular e cheia de erotismo. Este é o corpo que deve interessar (e se endereçar) a um analista em sua clínica.
O corpo pulsional é aquele que não abriga apenas o fisiológico, mas, toda trama de afetos, histórias e fatos de cada sujeito, através do que este diz e de como este o conta. Como Sônia Alberti nos fala em “A pele como litoral” (2021): quando o que está em jogo é o prisma psicanalítico, o corpo que importa é aquele que quando falado pelo sujeito, adquire forma e vida, implicando o que é dito e os efeitos disto, que é a produção de gozo.
O conceito de Gozo, nomeado assim por Lacan (1985), mas já apresentado por Freud (1920) nos seus ensaios sobre a pulsão de morte, conta de intensidades psíquicas e corpóreas que reincidem de maneira desenfreada, nunca sendo suficientes e demandando um pouco mais do contingente que o suporta. O Gozo nos conta daquilo que se excede provocando dor e, ao mesmo tempo, satisfação. Na clínica, é importante saber como o analisando goza e quais marcas isso produz em seu corpo.
Exemplo disso é a histeria clássica (citada no início do texto) onde apresenta-se torções e paralisias de membros, cegueiras e outras dores, sempre vinculadas a experiências traumáticas e desejos recalcados, que dizem também de um gozo opaco, a invenção de um discurso próprio. As conversões nunca se mostram sem alguma ocorrência de experiências vinculadas à inibição onde a libido perde mobilidade. Na conversão há um pensamento em linguagem metafórica, a inscrição de um significante lançado no corpo. A conversão se mostra transitória, na medida em que é escutada no aturdito de cada sujeito:
Outra articulação lacaniana entre corpo e subjetividade é o fenômeno psicossomático (FPS). Na atualidade, não raramente, nos deparamos com analisandos detentores de uma associação simbólica bastante deficitária e enorme dificuldade em explicar o que lhes ocorre, de maneira que não relaciona suas dores psíquicas às dores e danos físicos. Casos em que a fantasia – mantenedora de uma proteção que impeça a revivência traumática – está fragilizada, enfraquecida:
Nas frestas de uma estrutura debilitada, brotam angústias que alicerçam adoecimentos corpóreos dos quais quase não se tem notícias de seus porquês e inícios. Assim, têm-se um hiato na viabilidade de nomear um representante psíquico que drene o excesso pulsional destinado no corpo, dificultando inclusive um diagnóstico analítico, que implica então o analista uma atuação mais presente, atenta e também corpórea. Quando há duplo sentido, há possibilidade de interpretação, coisa que não mal se vê nestes contextos. O que há ali muito mais perceptível, é uma pulsão de morte talhada na repetição voraz, que impede melhores condições de nomeação pelo sujeito. Tais condições então devem ser construídas através de uma escuta onde se faça suplência, para que talvez, só mais adiante, uma análise aos moldes habituais aconteça.
Vale ainda fazer uma diferenciação (em caráter de aposta) das perspectivas citadas acima:
Obviamente, se está distinção (entre conversão histérica e fenômeno psicossomático) não for possível, não faz sentido pensar em fenômenos psicossomáticos. Bastaria a conversão histérica. A distinção corrente essas duas coisas é: na conversão histérica não há lesão no órgão; no fenômeno psicossomático, há lesão.
Lacan também nos contemplou em seu fazer teórico/clínico uma possibilidade muita rica no engendramento entre corpo e subjetividade, o triplo estatuto RSI: Real, Simbólico e Imaginário, onde o corpo real é articulado ao gozo, o encontro com o insuportável; o corpo simbólico à linguagem e suas representações/ significantes; e o corpo imaginário à imagem e ao engodo que dá forma:
"(...)como real, o corpo seria uma superfície de escrita da pulsão, comportando uma exterioridade interior chamada de objeto a. Como simbólico, o corpo seria habitado por letras, traços, significantes, enunciações e discursos. Finalmente no corpo imaginário incluiríamos os fenômenos narcísicos relativos à apropriação da própria imagem através do olhar do Outro. (...), mas assim como os fenômenos da corporeidade não são estrutural-específicos, eles também não se conformam perfeitamente a uma partição entre os registros, como se esta topologia conseguisse exaurir a totalidade clínica da corporeidade.
Vemos o quanto o tema do corpo é vasto e se apropria de muitos conceitos dentro da psicanálise e fora dela, para ser pensado. Assim, há muitas maneiras de ler-se uma dor, um acontecimento num corpo falado, sendo este, um mandatário performático de sua biografia: se há ali um sujeito, deve haver a aposta em uma linguagem mantenedora daquele corpo e que, por vezes, responde à lógica contemporânea na produção de seus sintomas:
A escuta analítica tem potencial de promover através da transferência – que suporta enredos, demandas e repetições de um sujeito -, outros caminhos que movimentem subjetividades ancoradas em diagnósticos, tornando possível a chance de o sujeito dizer de si para além de siglas e nomenclaturas determinantes, quebrando a cadeia de sentidos. Espera-se de uma análise, potencial de sustentar uma travessia de significantes que propicie o descolamento de um discurso paralisante.
Noutros casos, o caminho deve ser pavimentado para viabilizar a nomeação daquilo que faz adoecer, num silêncio localizado: produzir fala no encontro inevitável com o Real torna-se uma saída. Uma análise que possa produzir borda, sentido, para talvez mais adiante, fazer-se uma análise de fato. Ao analista, fica a função de escutar e atuar além, drenando o gozo e escoando os excessos, para que se faça borda como num sintoma neurótico simbolizável.
Em última linha, o que vemos nas contribuições lacanianas é a criação de um dispositivo que trata os sintomas com dignidade e importância, avesso ao saber médico que trabalha para sua eliminação. Discurso analítico vem um como possibilitador de mudança na relação do sujeito com seu sintoma, que o permita perceber e desenvolver dali um saber-fazer seu.
REFERÊNCIAS
FREUD, S; BREUER, J. Obras completas, vol.2: Estudos sobre a histeria. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, S. Obras Completas, vol. 6: Tres ensaios sobre a teoria da sexualidade, Análise fragmentária de uma histeria (O caso Dora) e outros textos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. 2ª edição. São Paulo: Companhia das letras, 2012.
LACAN, J. O seminário livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2ª edição. Rio de janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, J. O seminário 20. Mais, ainda. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
DUNKER, C.; RAMIREZ, H.; ASSADI, T. A pele como litoral. 2ª edição. São Paulo: Zagodoni, 2021.
