Retorno a Freud – por Heloísa Freire

DEMARCAÇÕES CONCEITUAIS FUNDAMENTAIS DA CLÍNICA LACANIANA: O NOTÓRIO RETORNO A FREUD

O início dos anos 50 foi marcado por uma proposta vinda de Lacan que ficou conhecida como “Retorno a Freud” e conta de um movimento que indagava os rumos que a psicanálise havia tomado, questionando os interesses por trás de uma prática distorcida, enquanto denunciava psicanalistas da época que haviam se tornado adeptos de duvidosa execução; palavra esta que nos revela um fazer, mas também carrega notícias sobre o caminho da morte em que passeava a lógica da psicanálise naquele período.

 

Lacan convocava a uma revisão, um retorno naquilo que era fundamental da prática: a escuta do inconsciente e os conceitos basais como sentido do tratamento, enfatizando a repetição, transferência, pulsão, e levantando questões sobre como vinha sendo conduzida a formação do analista em sua função e lugar, além da suspeita primazia que algumas instituições exigiam sobre seus próprios protocolos, colocando em ameaça a questão da análise leiga (Freud, 1926) mantenedora da formação e ensino com respeito a estrutura do inconsciente e da castração.

 

Nesta época notava-se o quão deslocada estava a práxis psicanalítica e considerando o legado deixado por Freud, esta racionalidade parecia ir se desvinculando da proposta original de forma danosa. Lacan alertava inclusive sobre a negligência com importância da fala no processo analítico:

Neste momento a vertente que se sobressaia ganhando mais espaço e número de adeptos era conhecida como psicologia do ego, que tinha em seus precursores Anna Freud, Hartman e outros pós-freudianos, tendo início e aderência principalmente na Inglaterra e nos EUA, onde se estabeleceu. 

 

Apesar de ser considerada uma faceta da psicanálise e dar centralidade a segunda tópica freudiana (Id, Ego e Superego), a psicologia do ego, como o próprio nome revela, considerava especialmente um desenvolvimento egóico que ia do patológico ao normativo, propondo uma adequação do indivíduo ao meio, com o fortalecimento do eu de maneira pedagógica e moralizante, sugerindo um tamponamento de fissuras, mirando o alcance de plenitude e consequentemente alimentando em seus pacientes a posição de objeto, oposta às vias de escuta do inconsciente, como requeriam os conceitos fundamentais. Desta forma, a linguagem ficava pouco evidenciada, gerando uma hipertrofia do imaginário com a ideia de etapas que pudessem levar o homem ao seu ideal.

 

Elisabeth Roudinesco, em “A história da psicanálise na França”, conta neste trecho, dos rumos por onde a técnica da práxis marchava e o cenário que se via neste contexto:

Percebemos ali o começo de uma conduta onde o que estava em jogo era um circuito egóico já dando indícios das cobranças de produção, hoje bastante explicitadas na cultura e nos referenciais imperativos do que supostamente espera-se de um indivíduo. Neste panorama apresentado por Roudinesco, o que se vendia era um melhoramento das identificações que trariam mais força ao ego, onde este pudesse controlar as pulsões. Mais uma vez, indo na contramão da ideia freudo-lacaniana que enquadra o ego como sintoma, alienação.

 

Observou-se no Brasil, um movimento crescente da procura por formação em psicanálise (tanto quanto a busca pela análise em si) especialmente a partir do ano de 2020 onde iniciou-se a pandemia causada pelo vírus COVID-19. As orientações da OMS pediam a quem fosse possível, permanecer em casa por tempo indeterminado até que se tornasse seguro retomar atividades presenciais (conselhos sobre doença coronavírus para o público, OMS 2020) ocasionando assim uma grande oferta de cursos online, certificados e graduações que permitiam a atuação como psicanalista em pouquíssimo tempo. Isso para algumas pessoas surgiu como solução diante da dificuldade financeira (dentre outras) que alçaram-se pela necessidade do isolamento, também como resposta fácil e rápida ao que se apresentava no social diante das imprevisões pandêmicas, que abalaram pilares emocionais e socioeconômicos em termos gerais.

 

Vimos desta forma, aumentar a presença de psicanalistas e estudantes falando de psicanálise nas redes sociais, democratizando acessos, mas também, perdendo muito da aplicação da técnica analítica e principalmente de sua ética, fosse nas maneiras de divulgação, tentativas de transmissão, formas de vender cursos ou nas leituras rasas, por vezes selvagens de personalidades e acontecimentos globais. A urgência em emitir opinião para se promover e monetizar, pareceu atropelar os caminhos da formação e a exigência de um percurso com análise pessoal, teoria e supervisão, o que desembocou num enviesamento das recomendações primordiais do campo, que dispensa sim certa rigidez, mas exige em paralelo algum rigor. Algo crucial veio se perdendo no caminho. Todo esse cenário traz similaridades com as delações feitas por Lacan nos anos 50.

 

Parece ter havido uma grande confusão neste âmbito, ora pela pressa contemporânea, ora por desvio ético, onde a ideia de alcançar faturamento ou número de seguidores passou a vir antes. A apresentação de certificados e até distintivos que supostamente significariam autorização para atuar nos consultórios, a venda de pacotes fechados com números de sessões que adequariam indivíduos a ter resultados grandiosos no trabalho e suas relações amorosas, a proposta de tornar-se alguém de alta performance em todos os campos da vida, gerenciando-a como uma empresa de sucesso, veio alimentando a ideia de um ego soberano, como sendo este, senhor em sua própria morada.

 

Tal movimento crescente de psicanalistas com codinome coach, cristão, mentor ou neuro, fazendo uso inapropriado das propostas recomendadas, parece ter vindo também como reflexo do momento onde o neoliberalismo tem vigorado como saída político-econômica diante das dificuldades atuais e, assim como citado mais acima por Roudinesco, qualquer desvio da busca por sucesso a lá “self made man”, tem sido percebido como patológico. Sobressai-se assim o exercício por uma adequação de indivíduos, novamente na contramão dos princípios erigidos:

Tais práticas terminam por colocar o analista numa sobreposição que vende um caminho absoluto e rende ao analisando identificações, produzindo uma docilidade em relação a esta “autoridade” que lhe dirá os passos de encontro ao ideal, causando uma despolitização e falta de autonomia sobre o próprio discurso, anulando assim, a revolta, o visceral, a peste dita por Freud (1909). Desta forma, me convence como atual o convite feito por Lacan anos atrás, que mirava em um resgate necessário das noções de psicanálise, diante agora, do que tem sido nomeado como psicanálise, especialmente nas plataformas digitais. Um convite a, primeiramente, se debruçar de maneira mais acentuada nos conceitos basais propostos, que em muito se difere de diversos mecanismos oferecidos hoje em massa:

Tendo Lacan, bebido na fonte freudiana para dar sequência nas especificidades de seu próprio método, demonstrou uma articulação magistral com outros saberes como a filosofia, as artes e a matemática, para formalizar seu pensamento. Propondo o alardeado retorno Freud, não parou por aí, usando os quatro conceitos, por exemplo, para embasar sua teoria da função do significante, tão importante em suas transmissões. A autenticidade de sua técnica ganhou aderência em solo brasileiro tendo expoentes como Maria Rita Kehl, Neusa Santos Souza, Contardo Calligaris, Christian Dunker, dentre outros, que despontam para além do campo, caindo também no gosto popular.

 

O Brasil como sendo um dos principais representantes da psicanálise lacaniana (ao lado da vizinha Argentina) e toda sua influência, ainda possui oportunidade para aperfeiçoar um ato mais leal rumo ao simbólico e menos imaginário, egóico e psicologizante. Se “a interpretação é um dizer que promove ondas” (Lacan, 1975) e não fecha um sentido,  há um chamado ao que temos feito sobre o legado que nos foi deixado. Tal qual Lacan em sua época, temos indicadores de como fortalecer a base, manter sua precisão, sem ser arrastado por demandas da urgentes do capital. Fazer sim uso das redes de comunicação, mas sem que suas modas sejam soberanas a ética que rege a psicanálise. Criar daí talvez um saber-fazer, nos apropriando da história colonial que nos atravessa enquanto sujeitos para descolonizar o que faz eco nos consultórios de todo território nacional.

REFERÊNCIAS:

FREUD, S. Obras completas, vol.11: Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos. 1ª edição. Rio de janeiro: Imago, 1996. 

FREUD, S. Obras completas, vol.17: Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 

LACAN, J. O seminário livro 1. Os escritos técnicos de Freud. 1ª edição. Rio de janeiro: Zahar, 2008. 

LACAN, J. O seminário livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2ª edição. Rio de janeiro: Zahar, 1986. 

JORGE, M. A. C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan. 1ª edição. Rio de janeiro: Zahar, 2022. 

ROUDINESCO, E. A história da psicanálise na França. A batalha dos cem anos. Vol.1: 1885-1939. 1ª edição. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. 

SAFATLE, V; JÚNIOR, N. S; DUNKER, C. Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. 1ª edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. 

Sites:
SAÚDE, Ministério da. Covid-19. 2020. Disponível em: http:// www.gov.br 

Vídeos:
DUNKER, Christian. Coaching é psicanálise? YouTube, agosto 2020. Disponível em:https://youtu.be/qwqTqqgfstg?si=FNpn-5or69YHcunH 

STARNINO, Alexandre. O alardeado retorno a Freud. ESPE, abril 2024. Disponível em: https://espe.app.toolzz.com.br/play/player/44296795 

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